‘Se houver barreira, vou derrubá-la', diz vereador com deficiência
visual’
Carlinhos Massa se elegeu na terceira tentativa e quer vencer desafio.
Primeira ação será criar cota de estágios para pessoas com deficiência.
Primeira ação será criar cota de estágios para pessoas com deficiência.
Carlinhos Massa perdeu a visão aos 13 anos
(Foto: José Carlos da Silva/ Arquivo pessoal)
(Foto: José Carlos da Silva/ Arquivo pessoal)
Sentir a água geladinha do Rio
Roncador. Comer caju direto do pé. Respirar o ar da antiga escola. É assim que
José Carlos Silva, 38 anos, resgata os momentos bons da infância, quando ainda
podia enxergar. Aos 13 anos, as retinas descolaram por causa de uma doença, e Lagoa do Carro, na Mata Norte de Pernambuco, agora é uma lembrança
gravada na memória.
Mas a Lagoa do Carro dos banhos de cachoeira, de chão batido e casarões antigos vistos pelo José Carlos menino. Hoje, ele tenta imaginar como a cidade onde mora está. Até se atreve a andar sem bengala, “para sentir de novo o gostinho da liberdade”, diz. Sentindo que faltava uma voz na Câmara Municipal que falasse pelas pessoas com deficiência, ele se candidatou a vereador. Elegeu-se apenas na terceira tentativa. “Estou preparado para o desafio. Se houver uma barreira, vou derrubá-la, acabar com o preconceito”, afirmou.
Mas a Lagoa do Carro dos banhos de cachoeira, de chão batido e casarões antigos vistos pelo José Carlos menino. Hoje, ele tenta imaginar como a cidade onde mora está. Até se atreve a andar sem bengala, “para sentir de novo o gostinho da liberdade”, diz. Sentindo que faltava uma voz na Câmara Municipal que falasse pelas pessoas com deficiência, ele se candidatou a vereador. Elegeu-se apenas na terceira tentativa. “Estou preparado para o desafio. Se houver uma barreira, vou derrubá-la, acabar com o preconceito”, afirmou.
José Carlos carregava desde a
infância a doença, que só foi descoberta após a cegueira ser irreversível. “Eu
tinha dificuldade na escola, para praticar esportes, tinha vergonha dos óculos
com lentes grossas que usava”, lembra. Aos 14 anos, largou os estudos. Lagoa do
Carro não estava preparada para alunos com deficiência visual.
Vida de
estudante
O jovem sentia que perdia as tardes sem fazer nada em casa, apenas escutando rádio. Era 1995 quando ouviu uma entrevista com Josenildo do Acordeon, que não podia enxergar assim como ele. “Vi nessa hora que podia levar uma vida normal.” No ano seguinte, arrumou as malas e foi para o Recife, distante 60 quilômetros de Lagoa do Carro. Instalou-se no Instituto Antônio Pessoa de Queiroz, nas Graças, que funcionava como uma espécie de internato para cegos vindos do interior pernambucano.
O jovem sentia que perdia as tardes sem fazer nada em casa, apenas escutando rádio. Era 1995 quando ouviu uma entrevista com Josenildo do Acordeon, que não podia enxergar assim como ele. “Vi nessa hora que podia levar uma vida normal.” No ano seguinte, arrumou as malas e foi para o Recife, distante 60 quilômetros de Lagoa do Carro. Instalou-se no Instituto Antônio Pessoa de Queiroz, nas Graças, que funcionava como uma espécie de internato para cegos vindos do interior pernambucano.
Aprendeu braile, um sistema de
leitura com o tato, e a se locomover sozinho. Em 1997, entrou no Instituto de
Ensino de Pernambuco, na Boa Vista, onde completou o ensino médio. “Foi no Recife que enxerguei
a vida que o cego pode levar. Dali para frente, tudo de bom aconteceu comigo”,
comentou.
Vida de
músico
José Carlos fez cursos profissionalizantes na Associação Pernambucana de Cegos (Apec), na Caxangá. Lá, formou um trio pé-de-serra Viajantes do Forró, junto com dois colegas deficientes visuais. Ele era o percussionista e passou a adotar o apelido Carlinhos Massa. “Tinha gente que nos viam como coitadinhos, mas não ligava”, recordou.
José Carlos fez cursos profissionalizantes na Associação Pernambucana de Cegos (Apec), na Caxangá. Lá, formou um trio pé-de-serra Viajantes do Forró, junto com dois colegas deficientes visuais. Ele era o percussionista e passou a adotar o apelido Carlinhos Massa. “Tinha gente que nos viam como coitadinhos, mas não ligava”, recordou.
O primeiro emprego foi no Hospital
Barão de Lucena, no Recife, como auxiliar de radiologia. Passou em um concurso
público para a Prefeitura de Paudalho, na Mata Norte, para atendente hospitalar,
onde até hoje trabalha. Depois, entrou também na Prefeitura de Lagoa do Carro,
como diretor de apoio da pessoa com deficiência.
Foi quando achou que podia fazer
mais. Em 2000, aos 26 anos, candidatou-se a vereador e recebeu 33 votos. “É que
eu achava que sabia alguma coisa naquela época”, brincou. Em 2004, saiu da
disputa e ficou apenas produzindo jingles para campanhas políticas. Em 2008,
foi o vereador mais votado, com 189 votos, porém o partido não atingiu o
quociente eleitoral necessário e ele não conseguiu uma vaga na Câmara.
Vida de
político
O desejo se concretizou no pleito de 2012, elegendo-se pelo Partido Social Cristão (PSC). Lagoa do Carro não tem programa eleitoral de rádio e televisão. A campanha foi feita com uma Kombi enferrujada e um som doado. Os panfletos foram impressos em copiadoras de amigos. “Minha deficiência não atrapalhou em nada, conheço a cidade de ponta a ponta”, falou.
O desejo se concretizou no pleito de 2012, elegendo-se pelo Partido Social Cristão (PSC). Lagoa do Carro não tem programa eleitoral de rádio e televisão. A campanha foi feita com uma Kombi enferrujada e um som doado. Os panfletos foram impressos em copiadoras de amigos. “Minha deficiência não atrapalhou em nada, conheço a cidade de ponta a ponta”, falou.
José Carlos sabe que a Câmara dos
Vereadores de Lagoa do Carro não está pronta para recebê-lo, não é adaptada
para pessoas com deficiência. “O que vai me ajudar é um programa de computador
que faz a leitura de textos, aí vou poder me informar e tirar dúvidas, também
terei uma assessoria para me ajudar. Escrever não é problema, decorei as
posições das letras no teclado”, disse.
A primeira ação como vereador será
criar um projeto de lei que determine cota para estagiários com deficiência em
órgãos públicos municipais. José Carlos quer que pessoas iguais a ele sintam-se
felizes em Lagoa do Carro. Sintam-se em casa. “Ser cego é como estar em outro
mundo. Sinto medo de tudo, a gente nunca sabe o que pode acontecer e de onde
vem o perigo, mas ainda ando de madrugada na cidade, às vezes sem bengala, para
sentir tudo de novo”, concluiu.
Fonte: Portal G1 - Pernambuco

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